domingo, maio 21, 2006

FESTA BRAVA

« ... Que de ti já tenho pena
estás citado a meia praça
não me obrigues, por desgraça
a prosseguir a faena ... »

E VIVA A FESTA BRAVA!

Em domingo acalorado
a citar em pleno centro
da praça de Barcelona
está o valoroso Ortega
com belo traje de luzes
de rosa e ouro bordado
e um capote de lona.
Entre passes de muleta
de derecha e naturais
ao publico até acena
olés cantigas e urros
já triunfou na faena
sem o Boi sair dos curros.

A seguir à catequese
e à missa está bem visto
prepara o bom do Manolo
caldeirada de petisco
com molho de vinho regado.
Dois pinchos de pata negra
mais um copinho no bucho,
a sesta já completada,
o estômago aconchegado,
sai de casa e vai à praça
ver o seu amigo Ortega
tentar faena de luxo
em domingo acalorado.
Até o amigo Vasquinho
foi à missa e comungou
só mesmo da catequese
que o Ortega proferiu
é que não tomou o fio
já que saiu de fininho
porque lha fome apertou.
Por bóia uma paella,
e tortilha de batata
com tomates e coentro.
Saíu a ver o Ortega,
já o estava a imaginar
a citar em pleno centro.

Foram também a Cristina
o Carlos e a Moranguinha
o João o cebolinha
o Pedrito e o Frazão.
À missa e à catequese,
foi tudo de sopetão,
que aqui ninguém se nega.
Até foi o mertulenga
daquela ti-lurdes fajona
a ver o bom do Ortega
que na tarde solarenga
não se vai perder pitada
na Praça de Barcelona.
O Sol e a Sombra cheios
as barreiras apinhadas
picadores bandarilheros
donzelas aperaltadas.
Director e cornetim
na tribuna se perfilam
para dar início à lide
do António Catarim
e da sua novel quadra.
Vieram touros de raça,
da herdade de Lobrega
e bem no centro da praça
está o valoroso Ortega.

Dias antes da faena
tenho amigos que dizer
que quem vos fala não mente
o Toureiro valoroso
de brios se acometeu
e pensou com seus botões
que tarde de campeões
pede veste reluzente.
E assim o nosso herói,
na tradição de andaluzes
encomendou a perceito
pra lidar touros de morte
um belo traje de luzes.
Vaidoso como só ele
sonha altivo e eloquente,
a glória de Salomão,
a praça a transbordar...
na sua imaginação,
já triunfou certamente.
Vai ter com o alfaiate
e dita então o dislate:
«Vou arrematar a sorte
em Domingo acalorado
com dois lances de capote
e um fato reluzente
de rosa e ouro bordado!»

O alfaiate soberbo
do dinheiro a receber
mas sem vagar pró trabalho
que o traje lhe vai trazer
distrai-se com cousas outras
de donzelas e barões
e ao pobre do toureiro
só alinhava os botões!
Oferece-lhe no entanto
à moda de Barcelona
o laço da carrapeta
a flanela prá muleta
e um capote de lona.
O António bem contente
com isto vai descansado
sem saber que o alfaiate
lhe fez o dito disparate
na parte mais importante
do traje de ouro bordado.
Já só vê a multidão
imagina o seu triunfo
no fundo do coração
tem a sorte como certa
dois tércios de bandarilhas
e o elogio das quadrilhas
entre passes de muleta.

Já só quer estocar o touro
Domingo mal pode esperar
nem almoço nem jantar
e só pensa no tesouro
que é lidar o xarolês
com panasquices da treta
ao capote e à muleta
bandarilhas é às três.
Está na lide confiante
verónicas, chiquelinas
que ficarão nos anais,
também passes na flanela
de derecha e naturais.
Depois de cantada a missa
naquele domingo de feira
vai rezar a santa Rita
e dos desditos botões
de ajoelhar na capela
quatro ficam na soleira.
Chega à praça peito feito
o rabo é seu por direito.
E vai ao centro da arena
que o triunfo é garantido
está confiante na lide,
ao publico até acena.

Quando brinda a lide à mãe
em gesto amplo e gingão
nem repara distraído
que lhe salta outro botão.
E é tão grande o aparato
nos testes com o capote
que mais dois saltam do fato
sem que o veja o pequenote.
Com palas como nos burros
já só vê o seu umbigo
o toureiro valoroso
e ouve bem orgulhoso,
olés cantigas e urros.
E bem no centro da arena
com a praça em alvoroço
lá salta mais um caroço
e o Ortega nem o vê
a jaqueta está pequena
e o collant de madalena
cai por terra a praça ri,
vos afirmo, nunca vi.
O toureiro quase nu
nesta quimera terrena
acenava à multidão
pensava com ilusão:
já triunfei na Faena!

E assim caros amigos
pensando que a multidão,
lhe gabava a sorte-lide,
por vaidade ou ilusão
garboso do seu orgulho
sem perceber o engulho
com o traje pelo chão
vestido só de colecta
o nobre e brioso Ortega
ficou desnudo entre muros,
e para sua desgraça
lidou-se sozinho na praça
sem o Boi sair dos curros!

OLÉ: Vasco Moreira

(Parece-me uma bela parabola …)

terça-feira, março 14, 2006


Ágape é o amor divino.
Eros é o amor dos amantes.
Phileo é o amor dos amigos.

Ágape é o amor mais resistente.
Eros é o amor mais intenso.
Phileo é o amor mais singelo.

Ágape é o amor eterno.
Eros é o amor efémero.
Phileo é o amor perene.

Ágape é o amor para o outro.
Eros é o amor pelo outro.
Phileo é o amor com o outro.

segunda-feira, março 13, 2006

III - EROS - AMOR CARNAL

A dança dos corpos que trocam toques trauteando
canções que o próprio vento embala.
Cada dedo das mãos abertas toca o seu par
na dança digital de velas douradas, que ilumina a noite fria do Castelo.
Sabendo exactamente onde tocar, e como embalar o outro corpo quente e deslumbrante-doce
na coreografia e dança sensual.

O frio gelado das paredes de pedra que arde e derrete sucumbindo ao calor da doce dança do deus corpo.
Sabores e cheiros que sentem e comem com os poros e alimentam cada átomo do universo que resumem.
Almas e mentes, embriagadas se fundem
no caleidoscópio de cores-sentidos
amago da vertigem deliciosa que culmina
na explosão atómica-defenitiva e dos corpos que se rendem à evidência do sono que antevêm ...

Raia a aurora e o calor derrete a geada e vaporiza
o orvalho
numa mística mas quente nebelina que anuncia
o fim da dança e o tomar pela razão do império dos sentidos.

II - PHILEO - AMOR FRATERNO


Alma que outra toca
e que na sensação familiar
do lúdico e luminoso labirinto
louco por descobrir se perde.
Entre cheiros a primavera,
flores e cores sob o Sol temperado
e em recantos e caminhos não trilhados
e nunca explorados,
no entanto com o sabor ao «ninho»
do Eu que encontro em Ti.

A cada passo descobre
um portal-passagem
ou janela para um novo labirinto
que é cada recanto d'alma gémea,
e assim se perde na doce descoberta.

Sinto a canela e o alecrim
de cada vereda nova por explorar
das coisas que por SER
compartilhamos.


Arvores semelhantes
com rebentos verdes,
viçosos vigorosos, lindos,
que nos entretêm em cuidados,
carinhos e atenção,
muito amor e emoção.

Em cada encruzilhada do caminho,
optando pela destra a Ti veria,
e mesmo que pla sinistra
tivesse divergido,
um Tu reconfortante descobria.

É esta a delicia do encontro.
E assim desta forma passa o tempo,
descoberta da razão
desta doce simpatia.
Que por ser curiosa alegria
reconforta anima e dá alento
ao corpo e à alma no momento.

E assim se passa o tempo duma vida.

I - AGAPE - AMOR ETERNO


Do verbo inicial emana a luz, que as trevas ilumina ...

Alpha e Ómega num momento de luz e calor feito existência,
de tempo parado eterno, em que tomas folego e contemplas o largo horizonte
que limite - fio azul que não fronteira, o teu caminho com o outro indica-determina.

Certeza de pertença original, sem mais absoluta
surge no momento em que corpos se dão e células trocam,
na oferta de vida que começa na união generosa, doce, inevitável.

O utero e o corpo que ofereces e recebes
de Mãe para Filho e Pai na concepção e parto eternos,
ciclo sem fim, de vida em vida com dádivas e partilhas desta trindade resultantes.

É este o AMOR de vida escrito, eterno delicioso e em tons por descobrir,
que pinta o tempo de mil cores num caleidoscópio cósmico
que assim não passa.

Pára e vive em paz, feliz eternamente !

sexta-feira, março 03, 2006

CARTA FINGIDA

Escrevi a mim mesmo uma carta,
fiz de conta ser de Ti.
Repleta de coisas bonitas
o campo o sol as estrelas,
o azul do mar mil beijinhos
o cantar de passarinhos
amei quando a recebi,
de abraços ternos foi farta.

Que li no papel enrrugado
foram palavras diferentes.
Diferentes por serem tuas
já que fechadas na carta
tomaram por Teu o sentir
e me disseram bem alto,
não sei se por meu ansejo,
que mais de mil me darias
abraços quentes e beijos.
VMM - 03-03-2006